Crônicas afetivas e reflexões de Eliana Pontes

Conheçam algumas das ilustrações de minhas poesias entre tantas outras interpretações criativas dos alunos participantes do projeto cultural, Eliana Pontes

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SEGREDO DAS GAVETAS
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Quem diria… eu e você
guardados em gavetas neste planeta!

Imaginava ser arquivo morto;
documento à espera do fim.

Até que um dia nos vimos por uma fresta
e nossos corações batem forte.

Tão forte, que nos soltam das gavetas
lançando-nos no meio do imenso mundo…

onde vimos o nascer do infinito, o início de tudo:
da busca, do encontro, da entrega, do perto e distante.

Não precisava tanta trégua na régua do destino.
Nem os limites para se chegar ao fim.

Não precisava construir o futuro com tantas lâmpadas
na cara da noite que dorme.

Também não precisava que o passado 
ficasse para trás de velho.

Assim, decidimos que a gaveta
ficaria sendo a nossa casa,
e o mundo, uma simples visita!

Desenho criado por estudante da 7ª série, da Escola Básica Estadual Prof. José Boiteux

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GOTA DE LUZ
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Em que gota estancam as lágrimas,
e o riso clareia o céu
para que dancem as estrelas
e a lua cante para o sol nascer?

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REBELIÃO DO SOL
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O sol apareceu transfigurado;
espirrando relâmpagos
que atingem os crânios dos transeuntes.

Ele quer ser coberto pelas nuvens negras!
Está nervoso, agitado, revoltado…
Com raiva do tempo que não passa,
da rotina das cortinas das janelas.

O sol está cansado
de ter que pedir licença,
de bater nas portas,
de repassar o calor do amor.

O sol quer brilhar nas cabeças,
relaxar os nervos,
vibrar os cérebros,
criar sorrisos e fazer amigos!

Desenho criado por estudante da turma de aceleração, da Escola Básica Estadual Jurema Cavallazzi

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Um sonho floresceu…
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em todos os canais de televisão.
O sonho de um astronauta
que teve a força de colocar
o mundo em suas mãos.

Desenho criado por estudante da 8ª série, da Escola de Educação Básica Irineu Bornhausen

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QUANDO O AMOR VAI EMBORA
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É como encher uma roupa de ar,
calçar sapatos pesados, sem tamanho certo,
caminhar sem ritmo, sem música, sem rumo.

Achar a memória no presente,
sem ser atingida pelo passado.

Não quero estar
com anticorpos
para o amor.

Quero que o amor venha
com intensidade
e surta algum efeito.

Desenho criado por estudante da 8ª série, da Escola de Educação Básica José Boiteux

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CASTELO TRISTE
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I

O castelo está chorando.

Sua fisionomia é de doente
com suas pontas fragilmente erguidas.

Ninguém lá quis plantar
uma figueira, uma goiabeira.
Nem o sol quis entrar pelos vitrôs.
O castelo quer sair mas é muito pesado.

II

De linguagem perpétua e obscura,
transmite o medo da solidão.

Em determinada época
o fizeram para sempre.

Na sua memória,
incansável vontade de viver

entre as cores dos brinquedos pedagógicos.

Mas nasceu adulto e inflexível;
com um potencial de pedras.

III

O castelo não vive de sonhos,
mas nem só de sonhos se flutua,
nem só de alegria se dança.

O castelo foi construído
de matéria pesada, mas mesmo assim
esconde ingênuos segredos dentro de si.

As lágrimas do castelo vêm do céu.
Enfim, tudo se transforma
de fora para dentro.

Nele existe apenas o desejo
de voar e sobrevoar.

IV

O castelo não quer moradas mortas na sua cabeça,
nem da sua memória, uma pensão abandonada.

Não quer ser de pedra.
Não quer estar num país dominado,
num corpo entre grades e cadeados.

V

O castelo quer, em sua cabeça,
janelas abertas e muitas luzes acesas.

Quer alguém que escute
as batidas insistentes do seu coração.

Alguém que o leve para outra dimensão
onde todos os homens são feitos
à prova de bala, de veneno, de choque, de solidão.

Desenho criado por estudante da 8ª série, da Escola de Educação Básica Profª Laura Lima

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O QUARTO
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Esse quarto é minha cama
porque posso deitar no chão.

Seu ouvido é o mais simples do mundo,
apenas um quadrado; quatro paredes lisas.

Assim que eu gosto de ouvidos;
sem labirintos, sempre dispostos a escutar.

Você, quarto oco,
é mais resistente que eu

porque não dorme…
apenas se esconde atrás da lâmpada.

Sempre existirá alguém que
abrirá espaço entre suas paredes.

Quantas pessoas 
dormiram dentro de você?

Às vezes, não sentiu medo da presença
de gente fria e calculista?

Ainda bem que você não fala
senão teria me interrompido várias vezes,
principalmente a esta hora da noite.

Você já se dedicou a alguém?
Você já tentou impedir
que alguém entrasse em você?

Você não se cansa dessa posição?
Gostaria de ser de outro jeito?

De minha parte posso dizer
que fisicamente sou frágil…
qualquer pressão saem lágrimas…

Só espero que agora,
quarto oco,
se sinta menos só.

Pelo menos, vazio… não ficou!

Desenho criado por estudante da 8ª série, da Escola Laura Lima

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CASA VAZIA
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O coração bate,
e a casa dorme
feito criança feliz.

As plantas,
mechas de cabelos,
não voam sem vento,
nem caem nos olhos da janela
sem antes subir pelas quinas.

Ninguém percorre as artérias-degraus.
Uma vitrola canta,
e a casa enche os pulmões,
se espreguiça toda…
mas os quadros ainda estão presos,
as portas fechadas, as janelas, os livros, os móveis…

Foi tudo imaginação:
a casa desmaiou nas minhas mãos!

Desenho criado por estudante da turma de aceleração, da Escola Jurema Cavallazzi

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OLHOS D’ÁGUA
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Meus olhos caíram
ao bater da porta
mas não se curvaram
diante de sua frieza.

Meus olhos rolaram
para debaixo da cama
mas não molharam seu tapete.

Meus olhos se fecharam
mas não de cansaço,
foi para se deixar sonhar.

Meus olhos madrugaram,
mas não de insônia,
madrugaram de esperança.

Meus olhos percorreram as paredes
mas não para achar uma saída,
e sim passear sobre os espaços compactos de você!

Desenho criado por estudante da 8ª série, da Escola Laura Lima

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COMPARTILHAR
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Trocar 
sem doar,
sem doer.
Compartilhar
sem misturar,
sem desfigurar.
Compartilhar
sem perder a identidade,
sem perder a personalidade…
Compartilhar
na dosagem certa
para não virar um vício.
Compartilhar
sem ofuscar,
sem cegar,
sem se esconder.
Compartilhar
sem vestígios,
sem perfume,
sem canção,
sem calor.
Compartilhar
sem rasgar,
sem descosturar
.
Compartilhar
sem manchar,
sem desbotar.

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ASAS DE SEDA
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Abana seu leque
de seda colorida, transparente…
Vá pelo campo,
sem atalho, sem apito.
Não se precipite,
não faça ruído.
Vá compassada e serena.
Vá em sentido ao som do ar, do campo.
Vá sob o olhar daquela criança.
Vá enquanto seus olhos não crescem.
Não franza a testa,
nem tome chuva.
Não toque o sino.
Não espere o trem,
nem atravesse o tráfego,
senão suas asas se tornarão cinzentas,
e o ar não suportará lhe trazer.
Vá pelos caminhos do campo.
Abana o ar
com suas delicadas sedas coloridas.
Não se perca de vista!

Desenho: Vá pelo Campo – (novo título: Asas de Seda) – criado por estudante da 7ª série, da Escola José Boiteux

   

Comentários sobre o Projeto de Incentivo à Leitura

"A leitura precisa ser desenvolvida nas escolas ou comunidades, não só aquela através das palavras escritas, mas aquela em que as palavras são escritas por experiências vividas" –  Eliana Pontes